Sunday, November 20, 2011

Pescaria

O menino observa as águas do lago à sua frente pacientemente, com uma vara de pescar deitada à sua direita e uma lata de iscas do outro lado. Ele olha as águas, calcula, cogita quais tipos de peixe estariam nas águas, qual seria o melhor ponto da margem para pescar, se suas iscas funcionariam e várias outras circunstâncias que poderiam alterar o resultado da sua prática. E assim, passa seus dias até que a fome interrompe suas ponderações e o faz lançar o anzol. Pescar, ele consegue, mas puxou a linha com peixes em suas pontas, mas estes não duram para sempre. E assim ele continua, dia após dia, pensando qual é a forma de fisgar o peixe ideal: grande, carnudo e que o alimente por muito tempo.

Um homem que sempre passava ali não pôde deixar de reparar no garoto e em sua constante observação do corpo d'água e não entendia o motivo daquele pequeno teórico não pescar mais. E assim, diariamente, o homem passava por ali e observava o garoto, que por sua vez observava a água. Um dia, no entanto, saiu de casa mais cedo, determinado a questiona-lo. Saiu de sua estrada de terra, foi em direção ao lago e puxou assunto com o menino.

- Meu filho, por que você não joga a isca na água? Todo dia eu passo aqui, vejo você aí pensando na morte da bezerra, tendo vara, linha, anzol e isca... O que falta?
- Eu tenho tudo isso, mas eu fico pensando se o melhor lugar é aqui, do outro lado, se minhoca é a melhor isca ou se devo usar massa; são muitas possibilidades.
- E você planeja pescar algum dia ou só ficar olhando a água?
- Eu pesco de vez em quando, senhor. Quando começo a sentir muita fome eu arrisco e acabo pegando alguma tilápia, um lambari. Mas são peixes pequenos e eu queria um muito maior.
- Muito maior? Como um bagre?
- Isso!
- Então você já tem o equipamento que precisa aí, é só tentar que uma hora você puxa um.
- Mas será que ele fica por aqui ou do outro lado do lago?
- Só tem um jeito de descobrir: vá pescando até descobrir onde eles ficam.
- Mas eu não sei!
- Tente, rapaz, pode ser que você saiba mais do que imagina.

E assim, impulsionado pelo conselho do homem, o menino pegou uma minhoca, atravessou-a com o anzol e a jogou na água. Alguns minutos depois ele sentiu o primeiro puxão, aguardou para ter certeza de que era um peixe e começou a puxar a linha. Puxou uma outra tilápia, um peixe modesto, mas não ficou descontente. Sorriu ao ver como a tentativa rendeu tão rapidamente e, virando-se para o homem, mostrou a tilápia até com certo orgulho. O homem sorriu e disse: "E agora, por que não tenta mais uma vez?".

O menino pensou e, de fato, não tinha razões para não tentar. Uma tilápia mataria sua fome por algum tempo, mas logo teria que pescar novamente. Além disso, ainda tinha aquela curiosidade quanto ao local ideal para pescar seu grande alvo, o bagre. Preparou outro anzol e o jogou, aguardou, esperou mais tempo até que sentiu uma nova fisgada. Quase jogou a vara para cima com o espanto, mas se recompôs e começou a puxa-la até saiu da água um pacu ainda novo, mas já bem maior que a tilápia.

- Aí, garoto, viu só? Você estava procurando tilápia nesse lago, mas aqui tem pacu, que é muito maior. Você vai precisar dum equipamento mais forte para pescar um desses já grande, mas até lá, tente muitas vezes, sem medo de errar.

Agradecido, o menino oferece os dois peixes para o homem quando ele se prepara para ir embora. O homem sorri, agradece e volta ao seu caminho de mãos vazias, assim como estava antes.

"Tente, rapaz, pode ser que você saiba mais do que imagina"

Thursday, October 20, 2011

Armadilha

Põe-se um pratinho com pepitas de ouro dentro duma sala e, fora dela, um homem. Deslumbrado pelo brilho do metal, ele perde seu bom senso, avança impulsivamente sem considerar todas as circunstâncias que o cercam e invade a sala da modesta fortuna quase aos pulos. Ouve a porta ser trancada às suas costas, mas não dá importância ao clique da fechadura já que agora tem em suas mãos a preciosa recompensa de sua ambição. Brinca com as barras, tenta pesa-las com as mãos, arrisca um malabarismo e assim segue, até que o entusiasmo inicial passa e nota que aquele metal não era quantidade suficiente para ser considerado uma fortuna ou uma aposentadoria.

"Tudo bem, este tanto é melhor que nada e nada era o que eu tinha antes de entrar aqui, então estou no lucro", raciocina com razão enquanto levanta-se para sair. Enfia seu ouro nos bolsos, caminha até a porta e a empurra, mas não consegue abri-la. Empurra, chacoalha, chuta, xinga, esbraveja, soca, baba de ódio e continua dentro da sala. Agora percebe as paredes cinzentas e que parecem frágeis, suas divisórias indicam que não é um muro de tijolos e que o forro é macio, até aprazível ao toque de seus dedos. O caminho para sair é interrompido por uma sisuda porta metálica, de cor de chumbo e que possui uma maçaneta.

O homem estuda todo o ambiente, composto apenas por esta porta e paredes semelhantes à que tocou e deseja sair. Tenta torcer a fechadura, mas ela se mantém imóvel apesar do muito esforço empregado. Revoltado, chuta a porta e as paredes, mas tudo permanece da mesma forma. Dá dois passos para trás e se arremessa com o ombro contra a porta, mas cambaleia e tomba.

Olha para sua adversária intransponível com um inexplicável temor, mas levanta-se novamente e tenta outra ombrada, mas cai de joelhos com uma dor que atinge seu braço como um punhal. Enfurecido, arremessa um soco contra o metal, mas agora sua mão - quebrada? - lhe aflige de tal forma que faz o enclausurado urrar. A perspectiva paranoica ficar preso até o último dia de vida entre aquelas paredes já atormenta o homem, que dá insignificantes chutes na porta. Há uma lâmpada acesa e ele calcula quanto tempo já teria passado ali dentro. Não pode ver o que acontece fora pois não há janelas nem se é observado e muito menos se alguém tenta liberta-lo.

O homem entra em pânico e volta a chutar tudo, agora com todas as suas forças. O braço direito, ferido em dois pontos, já é inútil e o preso berra para todas as direções que quer sair. Implora de joelhos, ajoelha-se como um rato enquanto recolhe seu ouro que se esparramou pelo piso acarpetado, esfrega sua testa contra o chão enquanto começa a chorar. Angustiado, transforma seu desespero em gritos desordenados até que ouve um clique. A porta está aberta! Ele se levanta, limpa as lágrimas com os braços e corre de volta para o lado de fora.

Nota - e espanta-se - que já é noite avançada e já se sente exausto de tanto que se debateu contra as paredes de seu cativeiro. Caminha pesadamente, quase arrastando o pé e já procura alguma árvore para dormir embaixo. Quando encontra uma, encosta-se e reflete sobre o tempo em que passou na jaula. Outro homem aproxima-se, sorri e cumprimenta-o. Pede licença para apoiar-se ao tronco também e deita com as mãos sob a cabeça.

- No fim do dia, nada como descansar, esticar o corpo... ainda mais depois de todo o esforço que tive.
- Que esforço?
- Algo estranho me aconteceu: entrei numa sala, ali fiquei preso por horas e só consegui sair após muita luta. Agora meu braço está dolorio, mas é só descansar que isso passa.
- E por que ficou preso?
- Também não sei. Assim que entrei nesta saleta, a porta foi fechada e apenas a reabriram muito depois. Nesse tempo tentei sair, chutei a porta, me joguei contra ela e nada disso adiantou, apenas me cansei e me machuquei.
- Que pena... mas o que você fazia lá?
- Olhei de fora e vi umas barras de ouro! Entrei e as peguei, pelo menos isso deu certo.
- Menos mal, menos mal! Assim se compensa o esforço, não?
- Sim, saí com o braço dolorido e esgotado, mas valeu a pena. E você, de onde vem?
- Vim dali - e apontou para a sua direita. Estava à beira do lago.
- Olha, que bom! Nem sabia que havia um lago aqui perto!
- Ele não é tão grande, fica ali atrás daquele morrinho. Foi uma descoberta acidental, andei sem rumo até que cheguei à margem. Mas apesar de não ser planejado, o passeio foi bom.
- Que beleza...
- E o melhor, consegui achar umas moedas jogadas perto duma árvore. Era uma quantia modesta, mas dá para arquitetar alguns planos.
- Então... não havia objetos de valor apenas dentro da sala em que fiquei?

Ambos calam-se, um por indignação e o outro por empatia. Mesmo ruminando seu ódio, seu arrependimento, suas dores e até sua inveja, o homem adormece ainda sem acreditar que não precisava ter se submetido a tudo que passou para conseguir tão pouco.

Tuesday, September 13, 2011

Clarinha

Clara acorda antes do despertador de seu celular chegar a tocar. Revira-se, rola dum canto ao outro da cama, ocupa o centro e estica os braços para ocupar o máximo de espaço possível e tentar alcançar os limites de seu leito. Ainda falta mais de meia hora para o horário programado para despertar, mas já tem os olhos atentos à luz que começa a invadir as frestas da janela. Planeja mentalmente como será seu dia: café da manhã, saída para o trabalho, reencontro com a chata da Sílvia, pressão do Alencar no escritório, ligação enrolada para aquele cliente que sempre complica... enfim, uma série de obstáculos está no caminho de Clara - e, ao final desse percurso, vê que a relação de pancadas sofridas por sorriso recebido é péssima.

Força, resiliência e coragem são virtudes louváveis, porém nem sempre suas consequências são agradáveis. Jesus carregou uma cruz frente a inúmeros seguidores, mas poucos o ajudaram com o peso. Assim também é a luta contra os desafios diários: sempre há quem diga "Fulano é um guerreiro!", mas nem sempre aparece alguém disposto a lutar junto. Clara, então, percebe que o peso que repousa sobre seus ombros ainda é suportável, mas melhor seria se houvesse quem compartilhasse um pouco do fardo - ou, simplesmente, demonstrasse algum apoio mais contundente do que um sorriso dado à distância.

Agora faltam poucos minutos para o toque do despertador e Clara pensa como aquele espaço vago já foi menos abundante quando namorava. Reginaldo não era o namorado perfeito, as brigas tornavam-se mais e mais constantes enquanto o homem deixava de ser um companheiro para tornar-se uma nova responsabilidade dela. Agora, no entanto, tudo isso se desfaz numa névoa de esquecimento. Clara consegue apenas lembrar de como era acordada por Regis com um abraço que lhe cercava inteira, qual uma muralha que a protegia e a escondia do mundo lá fora. Esse fragmento de lembrança, esse breve flashback é capaz de faze-la se mover e agora já não se estica para ocupar o espaço da cama: apenas curva-se, gira e encolhe-se em posição fetal com um sorriso delicado e os olhos fechados.

Toca o despertador. Clara já estava desperta, mas perdida em sua memória e se assusta com o toque. Lembra-se então da diária de hotel perdida nas últimas férias porque Régis não queria acordar cedo para viajar. Seu sorriso dá lugar a uma expressão séria e aguda. Tenta voltar ao abraço e aos afagos imaginários, mas aos poucos os braços ficam distantes, perdidos entre brigas, discussões e momentos de tensão. Por fim, já não consegue entender bem como aquele carinho matinal podia trazer tanta paz - vindo de alguém que havia se tornado um distúrbio em sua vida.

A moça refaz os passos de sua memória e percebe que mal começara a pensar em sua solidão atual e já pulara para um momento com seu ex-namorado. A carência usa o disfarce da saudade e engana o solitário. Condicionada a receber afeto e carinho de Reginaldo, Clara foi enganada por uma rotina que já havia acabado a alguns meses e por um falso conforto que lhe dava sensação de segurança. Havia saído duas ou três vezes com seu ex após a separação, mas estas noites acabaram bem antes do abraço de bom dia dado por ele, então nem esse sutil alento estava mais à sua disposição.

Então ela vai mais longe e lembra-se do começo com Régis. Das primeiras conversas, das primeiras trocas de sorrisos, do primeiro (desajeitado) convite para fazer algo - "com todo o respeito, claro!", disse ele enquanto tentava parecer calmo mesmo ao gaguejar. Esse momento cômico a lembra de Eduardo, outro rapaz com quem ela saiu algumas vezes - Clara senta-se à beira do colchão, o despertador já toca pela segunda vez. Edu era o rapaz que visitava a empresa esporadicamente para fazer a manutenção dos computadores. Após algumas semanas de conversas no bebedouro, Clara voltou de mais um almoço com suas amigas e seu mouse não funcionava. Movia-o em círculos, horizontalmente, verticalmente e nada de resposta. Curiosa, levantou o periférico e encontrou um post-it preso ao leitor de movimento com o texto "Que tal um cinema? Edu".

Lembrar disto traz a mesma alegria do abraço vivido outrora com Régis. A breve certeza duma intimidade antiga não poderia mais ser melhor do que a expectativa de conhecer um novo alguém. Evidentemente, há a necessidade de exposição e o risco de ser rejeitada, mas Clara percebe, enquanto arruma a roupa de cama, que o arrependimento de voltar a uma zona de conforto que lhe é familiar é mais danoso do que o incômodo da incerteza.

Sunday, September 11, 2011

Thursday, September 1, 2011

Papo

Tarde monótona duma quinta-feira úmida de verão. Carros e pedestres deslizam preguiçosamente pela avenida e não têm muita pressa de chegar a seus destinos – ainda mais quem perambula sem rumo. As janelas abertas dos prédios não denunciam movimento nenhum e, assim, escritórios lotados assemelham-se a pinturas estanques e inertes. Apenas um menino, Rafael, demonstra urgência neste cenário entediado duma grande cidade abafada. Caminha rapidamente e sem olhar para os lados até o ponto de ônibus e, com o transporte coletivo, chegará à sua escola.

Rafael tem autonomia para andar sozinho, mas ainda é novo, seus dez anos de idade ainda permitem-lhe aqueles pequenos atos de indiscrição que seriam condenados aos mais velhos. Senta no chão, fala o que lhe vem à mente, brinca enquanto todos ostentam uma pesada carranca. Ainda há algum tempo de espera até o coletivo passar: o estudante acabou de almoçar. Na mochila, entre os livros, carrega dois gibis para fazer o tempo passar. Mal Rafa começa a ler, um homem chega e junta-se à espera do garoto.

O homem, apesar de não estar desleixado, impressiona o menino. As tatuagens à mostra, os cabelos raspados bem curtos e o semblante fechado, duro e levemente talhado por marcas de seus trinta e poucos anos criam uma carapaça muito mais áspera do que sua personalidade gentil realmente é. Veste uma calça jeans, tênis surrados e uma camiseta levemente desbotada – quase o oposto do menino, trajado com um uniforme impecável de colégio. Eles sentam-se em pontas opostas do banco da parada e aguardam silenciosamente pela condução.

Rafa observa discretamente seu vizinho. Repara como suas tatuagens são, na verdade, bem desenhadas e têm detalhes de árvores, nuvens e um guerreiro samurai. Apesar da seriedade do homem, seu olhar calmo e seu modo pacato transmitem mais segurança ao guri. Rafael observa e capta todos os detalhes enquanto o homem apenas pensa, sem nem reparar no esforço de seu vizinho para olhar sem ser notado.

“Como que se fazem essas tatuagens?”, finalmente pergunta Rafael com um olhar aflito devido ao rompimento da barreira da timidez, porém ansioso para entender como um pedaço de pele pode ficar marcado daquela forma. “É com uma agulha... ela fica entrando e saindo muitas vezes, bem rápido, e assim a tinta fica lá dentro”, explica o homem enquanto simula com um dedo o movimento da máquina de tatuar.

O menino fica visivelmente impressionado com o método e pergunta se isso não é dolorido. “Depende do lugar. Aqui – mostra o antebraço – é mais fácil, já que não está tão perto do osso. É pior se a tatuagem é feita na costela ou no tornozelo, por exemplo”. Rafael fica sem reação: mal conhece esta descoberta e já é avisado que ela é um processo árduo. Antes que o garoto entre num silêncio introspectivo, o adulto pergunta como brincadeira: “E você, já tem quantas?”. “Nenhuma... ainda! Mas eu achei bem bonito e, se meu pai deixar, eu faço também”, responde sem entender que aquilo era uma brincadeira. O homem percebe a mudança no temperamento de seu interlocutor e indaga:

- Olha, menino... meu nome é Ricardo. Qual é o seu?
- É Rafael.
- Então, Rafael, tatuagem é uma coisa séria. Tem gente que não valoriza tanto, faz qualquer rabisco de qualquer jeito, mas eu acredito que algo que fica marcado para sempre na gente deve receber uma atenção especial. E falei que dói, mas de certa forma é algo que não é tão desagradável porque sabemos que aquele é um sacrifício que vai trazer bons resultados. E isso tem hora certa para acontecer, para você ainda está cedo, você ainda vai crescer e um desenho feito muito cedo pode virar um borrão sem forma mais tarde. Espere que, quando for a hora certa, você vai estar um pouco mais bem preparado.

Rafael baixa a cabeça e pensa em algo. O tatuado pensa se foi muito agressivo ao mostrar como uma tatuagem é definitiva, mas considera que é melhor isso do que criar um pequeno deslumbrado e um problema familiar. Ao mesmo tempo, lembra como as crianças são impulsivas e como agiu de maneira parecida com um antigo vizinho que tinha um dragão estampado em suas costas.

- Entendi. Mas você acha ruim ter tatuagem? Porque você falou tanta coisa negativa sobre ela...
- Não... fiz esta tatuagem e pensei bastante antes de tomar a decisão, já que não teria volta depois. Digo, até teria como tentar remover, mas doeria muito mais e ainda ficaria com marcas. Por isso que tento alertar as pessoas antes que façam as suas.
- E por que um desenho dum samurai? Você nem é japonês!
Ricardo gargalha com a objetividade da lógica de Rafael.
- É verdade, é verdade! Mas escolhi este desenho pelo seu significado. Os samurais eram guerreiros habilidosos que ficavam a serviço de outros homens. Acho que todos nós acabamos tomando um pouco dessa história quando crescemos.
- Você é guerreiro? – Rafael mal pode se conter diante desta possibilidade, aguçada por sua criatividade infantil.
- Não, não – ri discretamente Ricardo, quase esquecido de que ainda conversa com um garoto. Daqui uns anos você vai entender, principalmente quando começar a trabalhar.
- Legal! Então, quando chegar em casa, falo pro meu pai que vou querer fazer uma tatuagem daqui um bom tempo!
- Isso, aí sim ele vai concordar! Bom... o meu ônibus já vem vindo, mas foi um prazer. E não tenha pressa, tudo tem sua hora! Até um dia!
- Tchau, moço! – grita Rafael enquanto acena para Ricardo, que já nem lhe parece tão sério após a conversa e as brincadeiras.

Mesmo após uma conversa tão breve, o garoto e o adulto refletem longamente sobre o encontro. Ricardo lembra-se de seus tempos de criança, da pureza de sua visão e de como era menos controlado por convenções sociais que lhe punham obstáculos em alguns momentos em que gostaria de simplesmente bater papo como fez após a iniciativa de Rafael. Este, pelo contrário, admira a maestria de seu novo conhecido ao falar sobre as tatuagens e, mais ainda, sobre como esta modificação corporal é definitiva e deve ser bem calculada antes de qualquer ato precipitado.

Rafael ainda é muito novo para vislumbrar o que significa algo tão duradouro, já que seu universo tem seus limites no fim do ensino médio. Ainda não sabe nem o que lhe aguarda após a puberdade, como os primeiros passos da conquista da sua independência e o amor – com tudo de bom e ruim que o acompanha. Porém, esse curto diálogo com Ricardo sobre tatuagens já o ajuda a ver que há muito a ser descoberto além dos muros do colégio e da cegueira da imaturidade. Assim o menino começa sua caminhada rumo ao amadurecimento e já começa a pensar ternamente em como será seu amanhã.

Wednesday, August 24, 2011

Cão faminto

O cão já sabe instintivamente, desde muitas gerações atrás, que não se morde a mão que lhe alimenta. Por mais que o animal tenha força e capacidade para ser independente, ele mantém uma fidelidade única ao seu companheiro humano. Talvez seja medo, já que os golpes e as palmadas recebidas ficaram marcadas profundamente depois de tantas gerações surradas. Pode ser também o medo do desconhecido, de perder-se e morrer de fome - Jesus disse que seu pai alimentaria até os passarinhos, mas alguns cães devem valer menos que as aves então. De alguma forma, homem e cão - ou mão que alimenta e cão - seguem lado a lado.

Seguem lado a lado até o dia em que o cão percebe que o alimento que a mão lhe providencia é uma garantia, mas não é mais o suficiente. Às vezes o dono não percebe o crescimento do seu companheiro, mas sejamos justos, há cães que crescem quase que milagrosamente. Essa é, aliás, a minha característica favorita do vira-lata: ninguém sabe exatamente qual será seu tamanho quando adulto. Nem o indício do tamanho das patas é um fator determinante e totalmente confiável, portanto o menor filhote pode se tornar um colosso enquanto aquele que se passa por um raça pura consegue tornar-se apenas uma decepção.

O estômago vazio, então, começa a se impôr sobre a lealdade instintiva canina. Pouca comida é melhor do que comida nenhuma, mas também é o que basta para começar a aguçar a curiosidade do cão. A partir daí o cãozinho começa a não obedecer: não anda tão perto, não acompanha, dorme longe do amigo homem. Quando chamado, demora a responder. Quando ignorado, não busca a atenção do dono. Até o dia em que passa outro andarilho disposto a oferecer um pedaço a mais de carne...