Tuesday, September 13, 2011

Clarinha

Clara acorda antes do despertador de seu celular chegar a tocar. Revira-se, rola dum canto ao outro da cama, ocupa o centro e estica os braços para ocupar o máximo de espaço possível e tentar alcançar os limites de seu leito. Ainda falta mais de meia hora para o horário programado para despertar, mas já tem os olhos atentos à luz que começa a invadir as frestas da janela. Planeja mentalmente como será seu dia: café da manhã, saída para o trabalho, reencontro com a chata da Sílvia, pressão do Alencar no escritório, ligação enrolada para aquele cliente que sempre complica... enfim, uma série de obstáculos está no caminho de Clara - e, ao final desse percurso, vê que a relação de pancadas sofridas por sorriso recebido é péssima.

Força, resiliência e coragem são virtudes louváveis, porém nem sempre suas consequências são agradáveis. Jesus carregou uma cruz frente a inúmeros seguidores, mas poucos o ajudaram com o peso. Assim também é a luta contra os desafios diários: sempre há quem diga "Fulano é um guerreiro!", mas nem sempre aparece alguém disposto a lutar junto. Clara, então, percebe que o peso que repousa sobre seus ombros ainda é suportável, mas melhor seria se houvesse quem compartilhasse um pouco do fardo - ou, simplesmente, demonstrasse algum apoio mais contundente do que um sorriso dado à distância.

Agora faltam poucos minutos para o toque do despertador e Clara pensa como aquele espaço vago já foi menos abundante quando namorava. Reginaldo não era o namorado perfeito, as brigas tornavam-se mais e mais constantes enquanto o homem deixava de ser um companheiro para tornar-se uma nova responsabilidade dela. Agora, no entanto, tudo isso se desfaz numa névoa de esquecimento. Clara consegue apenas lembrar de como era acordada por Regis com um abraço que lhe cercava inteira, qual uma muralha que a protegia e a escondia do mundo lá fora. Esse fragmento de lembrança, esse breve flashback é capaz de faze-la se mover e agora já não se estica para ocupar o espaço da cama: apenas curva-se, gira e encolhe-se em posição fetal com um sorriso delicado e os olhos fechados.

Toca o despertador. Clara já estava desperta, mas perdida em sua memória e se assusta com o toque. Lembra-se então da diária de hotel perdida nas últimas férias porque Régis não queria acordar cedo para viajar. Seu sorriso dá lugar a uma expressão séria e aguda. Tenta voltar ao abraço e aos afagos imaginários, mas aos poucos os braços ficam distantes, perdidos entre brigas, discussões e momentos de tensão. Por fim, já não consegue entender bem como aquele carinho matinal podia trazer tanta paz - vindo de alguém que havia se tornado um distúrbio em sua vida.

A moça refaz os passos de sua memória e percebe que mal começara a pensar em sua solidão atual e já pulara para um momento com seu ex-namorado. A carência usa o disfarce da saudade e engana o solitário. Condicionada a receber afeto e carinho de Reginaldo, Clara foi enganada por uma rotina que já havia acabado a alguns meses e por um falso conforto que lhe dava sensação de segurança. Havia saído duas ou três vezes com seu ex após a separação, mas estas noites acabaram bem antes do abraço de bom dia dado por ele, então nem esse sutil alento estava mais à sua disposição.

Então ela vai mais longe e lembra-se do começo com Régis. Das primeiras conversas, das primeiras trocas de sorrisos, do primeiro (desajeitado) convite para fazer algo - "com todo o respeito, claro!", disse ele enquanto tentava parecer calmo mesmo ao gaguejar. Esse momento cômico a lembra de Eduardo, outro rapaz com quem ela saiu algumas vezes - Clara senta-se à beira do colchão, o despertador já toca pela segunda vez. Edu era o rapaz que visitava a empresa esporadicamente para fazer a manutenção dos computadores. Após algumas semanas de conversas no bebedouro, Clara voltou de mais um almoço com suas amigas e seu mouse não funcionava. Movia-o em círculos, horizontalmente, verticalmente e nada de resposta. Curiosa, levantou o periférico e encontrou um post-it preso ao leitor de movimento com o texto "Que tal um cinema? Edu".

Lembrar disto traz a mesma alegria do abraço vivido outrora com Régis. A breve certeza duma intimidade antiga não poderia mais ser melhor do que a expectativa de conhecer um novo alguém. Evidentemente, há a necessidade de exposição e o risco de ser rejeitada, mas Clara percebe, enquanto arruma a roupa de cama, que o arrependimento de voltar a uma zona de conforto que lhe é familiar é mais danoso do que o incômodo da incerteza.

Sunday, September 11, 2011

Thursday, September 1, 2011

Papo

Tarde monótona duma quinta-feira úmida de verão. Carros e pedestres deslizam preguiçosamente pela avenida e não têm muita pressa de chegar a seus destinos – ainda mais quem perambula sem rumo. As janelas abertas dos prédios não denunciam movimento nenhum e, assim, escritórios lotados assemelham-se a pinturas estanques e inertes. Apenas um menino, Rafael, demonstra urgência neste cenário entediado duma grande cidade abafada. Caminha rapidamente e sem olhar para os lados até o ponto de ônibus e, com o transporte coletivo, chegará à sua escola.

Rafael tem autonomia para andar sozinho, mas ainda é novo, seus dez anos de idade ainda permitem-lhe aqueles pequenos atos de indiscrição que seriam condenados aos mais velhos. Senta no chão, fala o que lhe vem à mente, brinca enquanto todos ostentam uma pesada carranca. Ainda há algum tempo de espera até o coletivo passar: o estudante acabou de almoçar. Na mochila, entre os livros, carrega dois gibis para fazer o tempo passar. Mal Rafa começa a ler, um homem chega e junta-se à espera do garoto.

O homem, apesar de não estar desleixado, impressiona o menino. As tatuagens à mostra, os cabelos raspados bem curtos e o semblante fechado, duro e levemente talhado por marcas de seus trinta e poucos anos criam uma carapaça muito mais áspera do que sua personalidade gentil realmente é. Veste uma calça jeans, tênis surrados e uma camiseta levemente desbotada – quase o oposto do menino, trajado com um uniforme impecável de colégio. Eles sentam-se em pontas opostas do banco da parada e aguardam silenciosamente pela condução.

Rafa observa discretamente seu vizinho. Repara como suas tatuagens são, na verdade, bem desenhadas e têm detalhes de árvores, nuvens e um guerreiro samurai. Apesar da seriedade do homem, seu olhar calmo e seu modo pacato transmitem mais segurança ao guri. Rafael observa e capta todos os detalhes enquanto o homem apenas pensa, sem nem reparar no esforço de seu vizinho para olhar sem ser notado.

“Como que se fazem essas tatuagens?”, finalmente pergunta Rafael com um olhar aflito devido ao rompimento da barreira da timidez, porém ansioso para entender como um pedaço de pele pode ficar marcado daquela forma. “É com uma agulha... ela fica entrando e saindo muitas vezes, bem rápido, e assim a tinta fica lá dentro”, explica o homem enquanto simula com um dedo o movimento da máquina de tatuar.

O menino fica visivelmente impressionado com o método e pergunta se isso não é dolorido. “Depende do lugar. Aqui – mostra o antebraço – é mais fácil, já que não está tão perto do osso. É pior se a tatuagem é feita na costela ou no tornozelo, por exemplo”. Rafael fica sem reação: mal conhece esta descoberta e já é avisado que ela é um processo árduo. Antes que o garoto entre num silêncio introspectivo, o adulto pergunta como brincadeira: “E você, já tem quantas?”. “Nenhuma... ainda! Mas eu achei bem bonito e, se meu pai deixar, eu faço também”, responde sem entender que aquilo era uma brincadeira. O homem percebe a mudança no temperamento de seu interlocutor e indaga:

- Olha, menino... meu nome é Ricardo. Qual é o seu?
- É Rafael.
- Então, Rafael, tatuagem é uma coisa séria. Tem gente que não valoriza tanto, faz qualquer rabisco de qualquer jeito, mas eu acredito que algo que fica marcado para sempre na gente deve receber uma atenção especial. E falei que dói, mas de certa forma é algo que não é tão desagradável porque sabemos que aquele é um sacrifício que vai trazer bons resultados. E isso tem hora certa para acontecer, para você ainda está cedo, você ainda vai crescer e um desenho feito muito cedo pode virar um borrão sem forma mais tarde. Espere que, quando for a hora certa, você vai estar um pouco mais bem preparado.

Rafael baixa a cabeça e pensa em algo. O tatuado pensa se foi muito agressivo ao mostrar como uma tatuagem é definitiva, mas considera que é melhor isso do que criar um pequeno deslumbrado e um problema familiar. Ao mesmo tempo, lembra como as crianças são impulsivas e como agiu de maneira parecida com um antigo vizinho que tinha um dragão estampado em suas costas.

- Entendi. Mas você acha ruim ter tatuagem? Porque você falou tanta coisa negativa sobre ela...
- Não... fiz esta tatuagem e pensei bastante antes de tomar a decisão, já que não teria volta depois. Digo, até teria como tentar remover, mas doeria muito mais e ainda ficaria com marcas. Por isso que tento alertar as pessoas antes que façam as suas.
- E por que um desenho dum samurai? Você nem é japonês!
Ricardo gargalha com a objetividade da lógica de Rafael.
- É verdade, é verdade! Mas escolhi este desenho pelo seu significado. Os samurais eram guerreiros habilidosos que ficavam a serviço de outros homens. Acho que todos nós acabamos tomando um pouco dessa história quando crescemos.
- Você é guerreiro? – Rafael mal pode se conter diante desta possibilidade, aguçada por sua criatividade infantil.
- Não, não – ri discretamente Ricardo, quase esquecido de que ainda conversa com um garoto. Daqui uns anos você vai entender, principalmente quando começar a trabalhar.
- Legal! Então, quando chegar em casa, falo pro meu pai que vou querer fazer uma tatuagem daqui um bom tempo!
- Isso, aí sim ele vai concordar! Bom... o meu ônibus já vem vindo, mas foi um prazer. E não tenha pressa, tudo tem sua hora! Até um dia!
- Tchau, moço! – grita Rafael enquanto acena para Ricardo, que já nem lhe parece tão sério após a conversa e as brincadeiras.

Mesmo após uma conversa tão breve, o garoto e o adulto refletem longamente sobre o encontro. Ricardo lembra-se de seus tempos de criança, da pureza de sua visão e de como era menos controlado por convenções sociais que lhe punham obstáculos em alguns momentos em que gostaria de simplesmente bater papo como fez após a iniciativa de Rafael. Este, pelo contrário, admira a maestria de seu novo conhecido ao falar sobre as tatuagens e, mais ainda, sobre como esta modificação corporal é definitiva e deve ser bem calculada antes de qualquer ato precipitado.

Rafael ainda é muito novo para vislumbrar o que significa algo tão duradouro, já que seu universo tem seus limites no fim do ensino médio. Ainda não sabe nem o que lhe aguarda após a puberdade, como os primeiros passos da conquista da sua independência e o amor – com tudo de bom e ruim que o acompanha. Porém, esse curto diálogo com Ricardo sobre tatuagens já o ajuda a ver que há muito a ser descoberto além dos muros do colégio e da cegueira da imaturidade. Assim o menino começa sua caminhada rumo ao amadurecimento e já começa a pensar ternamente em como será seu amanhã.