Thursday, October 20, 2011

Armadilha

Põe-se um pratinho com pepitas de ouro dentro duma sala e, fora dela, um homem. Deslumbrado pelo brilho do metal, ele perde seu bom senso, avança impulsivamente sem considerar todas as circunstâncias que o cercam e invade a sala da modesta fortuna quase aos pulos. Ouve a porta ser trancada às suas costas, mas não dá importância ao clique da fechadura já que agora tem em suas mãos a preciosa recompensa de sua ambição. Brinca com as barras, tenta pesa-las com as mãos, arrisca um malabarismo e assim segue, até que o entusiasmo inicial passa e nota que aquele metal não era quantidade suficiente para ser considerado uma fortuna ou uma aposentadoria.

"Tudo bem, este tanto é melhor que nada e nada era o que eu tinha antes de entrar aqui, então estou no lucro", raciocina com razão enquanto levanta-se para sair. Enfia seu ouro nos bolsos, caminha até a porta e a empurra, mas não consegue abri-la. Empurra, chacoalha, chuta, xinga, esbraveja, soca, baba de ódio e continua dentro da sala. Agora percebe as paredes cinzentas e que parecem frágeis, suas divisórias indicam que não é um muro de tijolos e que o forro é macio, até aprazível ao toque de seus dedos. O caminho para sair é interrompido por uma sisuda porta metálica, de cor de chumbo e que possui uma maçaneta.

O homem estuda todo o ambiente, composto apenas por esta porta e paredes semelhantes à que tocou e deseja sair. Tenta torcer a fechadura, mas ela se mantém imóvel apesar do muito esforço empregado. Revoltado, chuta a porta e as paredes, mas tudo permanece da mesma forma. Dá dois passos para trás e se arremessa com o ombro contra a porta, mas cambaleia e tomba.

Olha para sua adversária intransponível com um inexplicável temor, mas levanta-se novamente e tenta outra ombrada, mas cai de joelhos com uma dor que atinge seu braço como um punhal. Enfurecido, arremessa um soco contra o metal, mas agora sua mão - quebrada? - lhe aflige de tal forma que faz o enclausurado urrar. A perspectiva paranoica ficar preso até o último dia de vida entre aquelas paredes já atormenta o homem, que dá insignificantes chutes na porta. Há uma lâmpada acesa e ele calcula quanto tempo já teria passado ali dentro. Não pode ver o que acontece fora pois não há janelas nem se é observado e muito menos se alguém tenta liberta-lo.

O homem entra em pânico e volta a chutar tudo, agora com todas as suas forças. O braço direito, ferido em dois pontos, já é inútil e o preso berra para todas as direções que quer sair. Implora de joelhos, ajoelha-se como um rato enquanto recolhe seu ouro que se esparramou pelo piso acarpetado, esfrega sua testa contra o chão enquanto começa a chorar. Angustiado, transforma seu desespero em gritos desordenados até que ouve um clique. A porta está aberta! Ele se levanta, limpa as lágrimas com os braços e corre de volta para o lado de fora.

Nota - e espanta-se - que já é noite avançada e já se sente exausto de tanto que se debateu contra as paredes de seu cativeiro. Caminha pesadamente, quase arrastando o pé e já procura alguma árvore para dormir embaixo. Quando encontra uma, encosta-se e reflete sobre o tempo em que passou na jaula. Outro homem aproxima-se, sorri e cumprimenta-o. Pede licença para apoiar-se ao tronco também e deita com as mãos sob a cabeça.

- No fim do dia, nada como descansar, esticar o corpo... ainda mais depois de todo o esforço que tive.
- Que esforço?
- Algo estranho me aconteceu: entrei numa sala, ali fiquei preso por horas e só consegui sair após muita luta. Agora meu braço está dolorio, mas é só descansar que isso passa.
- E por que ficou preso?
- Também não sei. Assim que entrei nesta saleta, a porta foi fechada e apenas a reabriram muito depois. Nesse tempo tentei sair, chutei a porta, me joguei contra ela e nada disso adiantou, apenas me cansei e me machuquei.
- Que pena... mas o que você fazia lá?
- Olhei de fora e vi umas barras de ouro! Entrei e as peguei, pelo menos isso deu certo.
- Menos mal, menos mal! Assim se compensa o esforço, não?
- Sim, saí com o braço dolorido e esgotado, mas valeu a pena. E você, de onde vem?
- Vim dali - e apontou para a sua direita. Estava à beira do lago.
- Olha, que bom! Nem sabia que havia um lago aqui perto!
- Ele não é tão grande, fica ali atrás daquele morrinho. Foi uma descoberta acidental, andei sem rumo até que cheguei à margem. Mas apesar de não ser planejado, o passeio foi bom.
- Que beleza...
- E o melhor, consegui achar umas moedas jogadas perto duma árvore. Era uma quantia modesta, mas dá para arquitetar alguns planos.
- Então... não havia objetos de valor apenas dentro da sala em que fiquei?

Ambos calam-se, um por indignação e o outro por empatia. Mesmo ruminando seu ódio, seu arrependimento, suas dores e até sua inveja, o homem adormece ainda sem acreditar que não precisava ter se submetido a tudo que passou para conseguir tão pouco.