Saturday, March 17, 2012

Mancando

Após ter sua perna direita amputada, o homem coxeou, teve algumas quedas, mas um dia ofereceram-lhe uma prótese que subsituiria aquele pedaço de carne que lhe foi tomado. Feito sob medida, permitiu que o homem caminhasse naturalmente e até corresse em alguns momentos, porém mais uma vez tomaram-lhe parte do membro inferior - desta vez de maneira menos dolorosa, pelo menos. Determinou-se a seguir seu caminho mesmo com uma perna e assim o fez, entre saltos, tombos e paradas para recuperar as forças. Meses depois, no entanto, houve o anúncio: "não se preocupe, temos uma nova prótese!" e ele se animou, porém esta peça substitutiva era de qualidade muito inferior à primeira. Frágil, fazia barulho quando ele andava, não se prendia bem, deixava o fim do joelho escapar e ainda estalava durante a noite - de maneira que não podia ser usada. Não bastasse isto tudo, ainda houve a compra dum calçado que causavo incômodo ao pé esquerdo.

Assim foi durante pouco tempo, já que esta perna de pau não durou e sua vida útil logo se extinguiu. Por um breve período o homem equilibrou-se sobre sua perna verdadeira e seu sapato desagradável até que uma nova peça surgiu. Aparentemente funcional por já ter sido usada por outro amputado, esse apoio artificial havia se deteriorado muito desde que foi abandonada pelo dono anterior: também fazia barulho, parecia sempre prestes a quebrar mesmo com uma carga que lhe seria aceitável. Por ser da cor do piso do dormitório de seu dono, a maldita da perna postiça ainda tinha a capacidade de "sumir" esporadicamente. Assim que a encontrou após uma destas rápidas perdes, jogou-a no lixo para que ninguém precisasse mais usa-la.

Enfim, mais uso da perna esquerda até o implante da mais recente substituta da perna direita. Também já usada por outra pessoa, havia recebido críticas, porém o homem não teve opção a não ser adicionar esse adendo ao que restou de sua perna direita. Provou-a e pareceu-lhe confiável, porém na primeira caminhada percebeu que um peso descomunal tornava cada passo seu um desafio. Além da velocidade reduzida de locomoção, a perna esquerda começou a dar sinais de desgaste de tanto carregar sozinha o peso de todo o corpo e algumas dores já surgiam.

Hoje o homem tenta a todo custo remover a prótese, mas ela parece pregada aos ossos que lhe restaram. Tenta sozinho, pede ajuda, pede que quem a colocou a tome de volta, mas ninguém parece escuta-lo e sua perna esquerda fragiliza-se rapidamente. Passos em falso já são percebidos e a perna esquerda, antes tão confiável, agora já tem até suas primeiras falhas em que parece perder suas forças. Falta pouco para que a mastodôntica peça chegue ao fim da sua vida útil e seja descartada (ao menos é isso que o homem espera) porém já não se sabe como a perna esquerda poderá suportar o peso sozinha ou qual será a qualidade da próxima prótese empregada.