Wednesday, June 26, 2013

Iconoclastia

Naqueles tempos quando o homem ainda vivia sua alvorada havia pouco conhecimento para ser transmitido entre gerações: havia a agricultura, através da qual o ser humano se diferenciou de todos os outros animais. Ensinava-se também a convivência em sociedade, guia para uma existência pacífica - pelo menos dentro de cada pequeno grupo de humanos. E havia a obediência e o temor à força geradora de tudo e todos. Acreditava-se nesta força em todas as aldeias, mas ela tomava várias formas, caras, corpos, espécies, podia ser única ou até plural de acordo com quem a descrevia, mas numa aldeia em particular havia sido registrada com forma humana masculina e seus habitantes dedicaram fé e reverência à divindade conhecida como Qurj.

Um destes habitantes sempre admirou Qurj com amor filial. De pele tão negra quanto o basalto daquela estátua, Gryur sentia enorme e profundo afeto, além de tanta admiração que não ousava se aproximar do centro do local de adoração: apenas observava a estátua de longe, quase se protegendo atrás de uma das muitas colunas daquele rascunho de templo. Mesmo dali, no entanto, conseguiu fixar a imagem de Qurj: mesmo numa reprodução tosca dum homem, notava um braço erguido de maneira triunfal, o largo peito de força devastadora e a cabeça emergindo orgulhosa. Estes elementos formavam a imagem de força dum guerreiro vitorioso e dum exemplo de elevação e nobreza.

E assim, sempre distante e timidamente, Gryur observa seu ídolo. Não se achando merecedor de mais do que este distante contato, não se aproxima daquela estátua enquanto quase todo o restante da aldeia não tem o mesmo cuidado. Outros circulam a estátua, dançam ao seu redor e até tocam aquele pequeno homem rochoso com a ponta dos dedos. 

Numa quente noite de lua cheia o insone Gryur fica curioso para saber como seria a aparência do deus negro sob a luz clara e fria vinda do céu. O templo é formado por algumas colunas que impedem a visão de quem tenta ver Qurj de longe, então Gryur caminha sem rumo pelas colunas e, perdido com a escuridão noturna, perambula até encontrar a imagem que procura.

Pela primeira vez na vida a observa tão de perto e, impressionado, até se atreve a tocá-la. Sente sua superfície áspera e percorre toda a altura daquela forma humana com a palma da mão. Recomposto do choque, a observa mais atentamente e admira como o luar faz a superfície escura brilhar de maneira parecida com sua própria pele suada sob o sol. Repara em outros detalhes, nas formas angulosas e nos pequenos cristais incrustados por toda a rocha, a verdadeira origem do brilho. Estes detalhes são reunidos e ele passa a observar o conjunto. Repara então que a expressão de vitória era uma interpretação equivocada: o que acreditava serem a cabeça erguida orgulhosamente e um braço a comemorar uma vitória, na realidade são dois braços prontos para proteger uma encolhida cabeça. A imagem, na verdade, simboliza um homem acuado.

O choque! A vergonha! A frustração! Gryur havia dedicado uma vida toda a acreditar num covarde? Nos seus momentos de maior sofrimento havia apoiado todas suas forças num alicerce incapaz de suportar o peso de sua dor? Havia se inspirado num medroso diante dos momentos de provação? Desconcertado, o nosso primitivo homem corre, se desvia das colunas do templo e foge sem rumo. Acompanhado apenas do luar, caminha até sair da aldeia e entrar no desconhecido. Vaga por morros e campinas, acompanha a corrente dum rio, se alimenta de frutos e pequenos animais duma mata, perde-se entre as árvores que o alimentaram e, após dias de frio, fome e medo, decide retornar à aldeia.

Ele volta como saiu, porém agora carrega um pedaço de galho encontrado próximo à margem do rio. A ferramenta usada para alcançar frutas e caçar animaizinhos seria também a sua arma de conquista da redenção. Seus companheiros aldeões comemoram o retorno do irmão perdido, dançam, se agarram e correm para tocá-lo novamente, mas ele determinadamente caminha em direção à imagem de Qurj. Gryur entra no templo e avança pelo meio dos pilares até chegar ao seu único morador. Ao reencontrar seu traidor prepara-se para desferir um golpe e destruir a imagem. Só então nota que aquela amedrontada estátua não está sozinha. Aquela postura defensiva não era em vão: aquela estátua se encolhia perante uma forma muito maior, superior, de acabamento mais fino e, esta sim, de porte altivo e orgulhoso. ESTA era a verdadeira imagem de Qurj, o alicerce tantas vezes procurado durante os momentos de temor, a determinação necessária nos dias de trabalho mais pesado e a força para matar e não ser morto nas lutas.

Gryur entendeu então: durante toda sua vida havia procurado Qurj da forma errada ao se manter tão afastado do centro do templo e por isso não o encontrou. Havia visto uma reprodução do homem porque o verdadeiro deus estava oculto atrás dum pilar. Aliviado, ele solta o galho: já não quer mais destruir aquele símbolo humano e não divino. Finalmente Gryur havia aprendido com Qurj o que era piedade.