Thursday, August 15, 2013

Apocalipse zumbi

Bob tinha pontaria perfeita. Conseguia acertar a cabeça de uma pessoa ou zumbi em movimento mesmo a dezenas de metros de distância. Isso nos seus jogos de videogame favoritos. Na vida real nunca chegou a ver uma arma de fogo pessoalmente. Morreu enquanto sua irmã mais nova, ou o que restava dela, mastigava seu pescoço.

Jules devorava filmes de zumbis. Havia assistido de tudo, desde os mais leves aos mais grotescos. Decorara elencos, falas, diretores e curiosidades. Sempre se atentara a tudo, menos à tendência dos personagens mais magros de terem uma expectativa de vida maior. Exausto após um pique de trinta e poucos metros, foi alcançado por um bando de mortos-vivos.

Roberta era loira, linda, vivia rodeada de amigos e sempre frequentava festas. Em seu passado havia sido uma nerd escoteira e por este e alguns outros motivos como suas gordurinhas não havia tido muitos amigos na infância, porém conforme crescia os meninos deixaram de persegui-la para fazer piadas e começaram a persegui-la para conseguir um encontro. Roberta sobreviveu à infestação e à primeira leva de zumbis de sua cidade, mas não sobreviveu por tanto tempo pois seus conhecimentos de construção de acessórios para beber cerveja e fumar maconha já não eram tão úteis. Como fazia falta lembrar o modo exato de se fazer um torniquete!

E assim, entre conhecimentos acumulados e não empregados, todos morreram. Todos estes citados anteriormente. Todd, militar em treinamento na época da disseminação do vírus, tinha ouvido falar de zumbis apenas brevemente. Não entendia nada do assunto, mas conhecia o que era essencial à sua sobrevivência: onde arranjar comida, bebida e formas de defesa. Aprendeu a lidar com os zumbis apenas mais tarde e, graças à sua capacidade de adaptação, realizou a façanha de morrer de velhice num mundo devastado pela doença.

Thursday, August 1, 2013

Demolição

Há poucos anos a construção civil começou a caminhar em passos cada vez mais largos no Brasil e virou um negócio interessante para muita gente: recém-casados encontraram seus ninhos, famílias aumentaram, o governo garantiu a preferência dos eleitores e construtoras agigantaram-se como num passe de mágica. O panorama das cidades também mudou conforme cidades pequenas começaram a se verticalizar e áreas antigas das metrópoles passaram a dar lugar a novos edifícios. 

Às vezes edifícios brotam da terra, surgem como mato resistente e tornam a selva de concreto cada vez mais fechada; às vezes chegam sem pedir licença e desajeitadamente tropeçam na antiguidade, derrubando casas desabitadas, escolas silenciosas e comércios falidos. Esta substituição é permitida através do trabalho de demolidores. Dentre todos os demolidores do crescente mundo da construção civil, era necessário colocar Benê um degrau acima do resto. 

O atarracado negro de pouco mais de um metro e meio de altura não parecia ser o modelo ideal do profissional incumbido de realizar um esforço físico tão severo, mas Benedito compensava com energia e disposição o que lhe faltava de altura e envergadura. Mesmo destruindo o trabalho alheio era chamado de "artista" pelos colegas: sempre sabia quais pontos das estruturas devia atingir com sua marreta para conseguir o efeito máximo com o mínimo de esforço e por isso fazia paredes desaparecerem como folhas de papel. Quando queria impressionar seus colegas, no entanto, incansavelmente atingia seus alvos com saraivadas de golpes velozes. O suor corria por seu corpo, mas aquela escultura móvel de ébano não demonstrava nenhum sinal de estafa.

E assim casas tombaram, barracões caíram, imóveis parcialmente construídos voltaram ao pó e até um ou outro prédio foram reduzidos a migalhas - todos vítimas da impetuosidade de Benê. Graças a seu talento único Benê era sempre uma atração onde trabalhava e ganharia dezenas de doses de cachaça de seus colegas, porém havia uma peculiaridade: Benedito não costumava parar nos botecos depois do trabalho. Diziam que era crente, que tinha problema de fígado e até que pagava promessa, mas ele apenas dizia que economizava dinheiro, que não gastaria com pinga naquele momento - e assim fugia até das doses que lhe eram oferecidas como agradecimento pelos seus serviços bem executados.

Seguia-se esta rotina até aquela manhã de terça-feira em que a demolição ficou paralisada por um boato: Benê havia perdido a sintonia com sua marreta. Não parecia cansado nem doente,  mas via-se outra pessoa sob sua pele, esta incapaz e até apática diante do adversário de tijolos. Robson, o capataz, tratou de resolver este impasse e perguntou ao seu astro o que havia acontecido. Constrangido, Benê chamou Robson para um canto isolado da obra e explicou:

- Sabe o que é, doutor? Eu gostava demais de quebrar tudo aqui na obra, derrubar as parede, quebrar os pilar... Até ajudava os outro mesmo quando já tinha terminado o meu serviço porque eu achava bom mesmo é poder quebrar as coisa, sabe? Eu chegava em casa e ficava com uma coisa que eu queria quebrar tudo e até fiz isso uma vez depois de ficar de fogo. Mas depois que conheci a Lucinéia ela falou que ia me dar um beijo só se eu entrasse na linha, parasse de beber e merecesse o beijo porque ela me viu nesse dia que eu tava de fogo. Eu comecei a andar na linha, não fui mais tomar minha pinga e ontem ganhei o beijo. O problema é que essa vontade de quebrar tudo... passou.

E o mundo da demolição perdeu seu mais talentoso profissional para Lucinéia. Robson avisou que mulher é um bicho perigoso e que não sabia se teria como manter o emprego de Benê, mas o demolidor não o ouvia: dotado da convicção dos apaixonados, tornara-se muito mais resistente do que as paredes que trouxa abaixo.