Monday, August 4, 2014

Sinal divino

Josias tenta dormir cedo para não perder o voo agendado para a manhã seguinte. Viaja de São Paulo ao Rio de Janeiro: participará dum congresso de quatro dias de duração. Desliga as luzes, bebe um copo de leite quente e liga o televisor para assistir algo que lhe faça dormir.

Passa pelos canais de filmes. Três diferentes passam filmes da série Velozes e Furiosos, outros dois transmitem Harry Potter diferentes e meia dúzia deles se dedicam apenas a séries. Confere os canais de programação retrô e, grande surpresa, um deles exibe Vivos, a história dos passageiros dum avião que sofreu um acidente sobre as Cordilheiras dos Andes.

- Isso só pode ser um sinal! - diz com voz vacilante o cético Josias.

Perde o sono e passa a madrugada em claro, relutante entre a passagem comprada e a incerteza sobre seu próprio destino. Come algo às seis da manhã e decide tomar o metrô até a rodoviária. Perderia o primeiro dia do congresso, mas pelo menos viveria por muitos anos. Até já pensa no que diria caso sua sobrevivência fosse descoberta e virasse matéria de jornal. "Eu nasci de novo", declararia em tom solene, em respeito a todas as vítimas do acidente.

O ônibus começa a rodar e Josias, vencido pelo sono do qual não usufruíra durante a noite, dorme antes da saída da capital paulista. Seu sono pesado faz com que não veja dois irmãozinhos brincando três assentos à frente do seu, a moreninha que embarca no começo da rodovia BR-116 e nem a forma desengonçada com que um caminhão passa por uma alça dum trevo, ocupa duas faixas e acertar a lateral de seu ônibus.

Josias acorda com o choque e quando percebe o que está acontecendo, já está pendurado pelo cinto de segurança enquanto muitos dos passageiros já foram arremessados quando o ônibus caiu com sua lateral no asfalto. Seguro pela cintura, com o braço quebrado e com alguns pequenos cacos de vidro alojados em seu rosto, ele vê o cenário de maneira mais ampla e compreende: o sinal de Deus era para acreditar mais em seus instintos.